sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Luzes da cidade


Foto: Tamiris Gomes
Fecho o livro, meus olhos já estão exaustos. Ainda faltam duas paradas para chegar ao ponto em que desço. Foi aí que pela porta de trás do ônibus vejo entrar uma família, cheia de trouxas e mochilas. Um pai, uma mãe e um garoto, o Neguinho. Eu estava sentada naqueles bancos altos, que ficam sobre as rodas e foi ali que Neguinho quis sentar – como toda criança. O pai, depois que subiu as coisas e o filho, correu para entrar pela porta da frente, pagou as passagens e passou a catraca.  

Neguinho estava ao meu lado, de tão pequeno quase não era possível notá-lo, com uma havaianas nos pés, short jeans e uma regata dava para ver os ralados das canelas, dos joelhos e dos cotovelos em sua pele morena. Seus pequenos olhos negros olham estagnados através da janela, contemplando as luzes da cidade. Os olhos de Neguinho brilhavam e eram muito mais reluzentes do que a radiação da luz no poste do viaduto. 

Eu o olhava e sorria. O pai, sentado do outro lado chamava por ele: “Neguinho, vem como o pai, vem?”, dizia. Mas o menino não respondia, eu não sei o que ele via. Não sei nem se Neguinho já havia andado de ônibus alguma vez. O pai redarguiu: “Vem, meu Neguinho!” e estendeu os braços. Neguinho não se conteve e caiu no colo do homem. A minha presença sequer foi notada e Neguinho estava lá, a olhar as luzes da outra janela.

Não sei nada sobre Neguinho, não sei seu nome nem sua idade. Não sei seu doce ou desenho animado favoritos, se é sapeca ou tímido. Só sei que Neguinho tinha olhos. Olhos que brilhavam, como luz. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ônibus das onze

Ônibus cheio, pessoas cansadas, rostos caídos e inexpressivos. Já passavam das 23 horas. O ônibus veio do Brás e seu destino era Poá. Em um dado momento quando passava pela cidade de Itaquaquecetuba, uma mulher, em um ponto escuro e sozinha, dá o sinal. A porta da frente não foi aberta, então ela entra pelo fundo e com isso o cobrador a indaga. A mulher diz que desceria se o motorista abrisse a porta da frente, ele diz que sim. Ela desce e ele parte, não cumprindo o que disse. Logo no ponto a frente, o mesmo fato acontece, com uma outra senhora. Muitos dos passageiros começam a gargalhar, foi aí que um sensato grita lá do fundo: "ela poderia estar voltando para casa depois de um dia longo de trabalho, se fosse a sua mãe você não faria isso." Mas o sensato é calado pela feroz gargalhada dos despreocupados. Enquanto isso, as duas mulheres esperam o próximo ônibus que lhes permitam entrar além da porta, e pagar R$ 3,00 para adentrarem além da catraca, ainda assim com a incerteza de conseguirem um assento para o último cochilo do dia.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Medo de bicho


Aconteceu há algumas semanas. Chego da faculdade, cansada, com vontade apenas de tomar um banho, preparar uma caneca de leite e desabar sobre o colchão. O dia foi de muito calor, durante a noite o clima estava um pouco mais agradável. Abro o portão, que geralmente meus pais já deixam discretamente aberto, pego as chaves e abro a porta. Coloca as chaves no balcão da cozinha entre a sala e me dirijo ao meu quarto. Acendo a luz e, vejo uma barata na parede próxima a minha cama.  Não gritei. Devagar, bem devagar vou me abaixado para apanhar um de meus chinelos ao chão... Vagarosamente eu me levanto e vou em direção a dita cuja. Agora, não posso mais agir com lentidão. Meu braço se vira e dá-lhe a chinelada. Todas as minhas forças estavam naquele braço, misturadas com asco. Ela escapa e não consigo mais vê-la.

Naquela noite não dormi em meu quarto. É ridículo, confesso. Mas não consegui. Senti medo, repulsa e nojo. Só de saber que ali dentro tinha um bicho vivo, preferia ir mesmo para o sofá da sala. No dia seguinte, entrei no quarto e pensando ainda na barata, averiguei se ela não poderia estar por lá... Bem, acho que não. Ela se foi. Olhei para o chinelo, olhei para a parede e dei muitas risadas. Mãe sempre diz que você não precisa ter medo destes bichos, eles são pequenos e quem deve sentir medo são eles. As crianças sentem-se mais seguras. Eu ouvia muito isso...

Ali, de súbito imaginei que naquele momento quem deveria estar em pânico, aterrorizada com um ser gigante segurando um objeto de borracha preste a lhe esmagar, não era eu. Dei mais risada. A pobre da barata tomada pelo pavor fez o que até nós, racionais, faríamos. Ela se escondeu de mim porque não queria morrer.

Hoje, voltando para casa, vi uma barata correndo pela calçada, desesperada. Nada de medo. Lembrei da barata do meu quarto. Em que quarto ela deve estar agora? Será que conseguiu escapar de mais chinelos? Em quantos tantos de pessoas ela já botou medo, além de mim?

Ah, pena que barata não fala...

sábado, 22 de outubro de 2011

No meu tempo...

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


Mário Quintana, O Tempo


O tempo é relativo. Kant¹ o concebia como a constituição de sensações, resultantes do nosso estado de consciência. O que faz todo o sentido uma vez que o tempo, em teoria, é individual para cada ser humano, intimamente ligado ao nosso estado físico e psíquico. Dilemas sobre o tempo assombram milhares de pessoas no mundo. O estresse precoce, a correria cotidiana de intensa agitação, a busca do status e o incessante reconhecimento profissional é a partida para uma priorização do pessoal, fazendo do tempo apenas uma ferramenta de trabalho.

O tempo é gasto de forma descartável. A dinâmica da vida moderna trouxe consigo complexos irreversíveis para a sociedade. Estar sempre atrasado virou rotina, e não se atrasar é lei. Em um mundo tecnológico em que as informações são tidas com tal velocidade parece até controverso dizer que “falta tempo”, “não se tem tempo”. Deveria sobrar, mas a demanda é maior que o produto. Nos sobrecarregamos com atividades porque queremos preencher o tempo, como se ter tempo livre fosse um pecado. Uma folga, conversar com um amigo, escutar uma boa música e caminhar, por exemplo, são 'preenchimentos' necessários de tempo.


Além de ser um recurso norteador de ações, o tempo é uma das referências de nossa existência. Ele é o detalhe da vida e a vida é o grande quadro que o tempo pinta. Mas o tempo não é artista, ele é só a tinta...




Quem mata o tempo não é assassino, mas sim um suicida."
Millôr Fernandes




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¹Immanuel Kant, filósofo alemão, em geral considerado o pensador mais influente dos tempos modernos, nasceu em Königsberg, atual Kaliningrado, em 22 de abril de 1724. Não casou nem teve filhos, faleceu em 1804 aos 80 anos.



sábado, 15 de outubro de 2011

Um caso na Cracolândia


Na madrugada deste sábado, com uma amiga, a Samantha e mais duas pessoas que prefiro não identificar, tive a experiência de ir para a Cracolândia. Estávamos próximo à estação de trem Júlio Prestes e ali decidimos descer do carro para irmos conversar com aquelas pessoas, invisíveis para a sociedade, ou visíveis negativamente, não que se deva olhá-los positivamente, mas com o mínimo de sensibilidade e respeito, isso mesmo, respeito.

 

O intuito desta nossa “aventura” era parte integrante de um trabalho acadêmico e precisávamos de um depoimento com declarações a cerca das drogas, do vício e afins. Ao chegarmos, nos receberam bem. Conversaram conosco, respondiam a toda e qualquer pergunta, mas um porém, não queriam ser gravados. De forma alguma queriam ser gravados, nem em vídeo ou áudio. Relatavam que a imprensa é deturpadora e o medo deles é que isso fosse para a internet e alegavam que tinham família e não queriam ser expostos desta maneira.

 


O Ivan foi um dos que “armou” a conversa para nós. Alto, moreno e de bigode. Expressava-se bem, era articulador e esperto e não fumou perto de nós. Ali, falamos também com o Marcelo, moreno e magro, ficou o tempo todo sentado, diz que era designer gráfico, morava no Rio de Janeiro e que possuía vários imóveis em São Paulo e que chegou a gastar 40.000 em drogas em 15 dias. Antônio, diz que era fresador, já tentou parar de usar drogas cinco vezes e não conseguiu e diz que sua família o ajuda eventualmente, estava há duas semanas sem tomar banho, moreno claro de barba e calmo, o que menos falava. Alex, aparentemente o mais alucinado, se movimentava demais, ia até nós e depois voltava para onde estava, mas queria estar envolvido e participar da conversa, negro, jovem, diz que não sabia ler, mas que sabia fazer tudo quanto era trabalho artesanal.



Durante aproximadamente o tempo de 1 hora, ficamos ali tirando as nossas dúvidas enquanto jornalistas e também pessoas, porque é impossível não se comover. Nos contaram que quando aparece uma criança na esquina, gritam “anjo” e todos param de fumar, por questão de “ética”. Mas ética em um lugar como aquele? Pois é. O mesmo acontece quando precisam “utilizar o banheiro”, é desrespeitoso fazer isto à vista de todos, principalmente mulheres. Disseram que há um compartilhamento de comida, que ninguém passava fome.



Depois de tudo, quando estávamos para ir embora, o Ivan disse que deveríamos pagá-los pela entrevista (entrevista essa que não havia sido gravada). Foi esse o momento mais tenso. Formou-se um círculo e começaram a discutir entre eles, uns queriam aliviar a barra para nós, outros diziam que deveríamos pagar. Uma das pessoas que nos acompanhava na empreitada sacou R$30, 00 da carteira, o Alex não esperou o veredito final, pegou o dinheiro e saiu, sem dizer que ia dividir com os outros.

O Ivan se irritou, nos acompanhou até o carro e disse que deveríamos dar mais dinheiro para ele, pois se ele voltasse sem nada ele ia se ferrar. Tínhamos mais R$ 30,00 no carro. Nesse trâmite todo, Ivan permitiu que o gravássemos dando um depoimento. Foram mais ou menos 20 minutos de vídeo. Nos agradeceu, pegou seus “trintão” e foi.

Na volta, ouvindo Nazareth no último volume, vento nos cabelos, pensei em tudo o que havia acontecido. Termino com algumas palavras de Ivan: “vocês ganharam uma experiência, ninguém tem coragem de fazer isso que vocês estão fazendo agora...

 


Por Tamiris Gomes

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A "cidade jóia"

Texto para o blog Mural.

Com seus 17 Km² e pouco mais de 100.000 habitantes, Poá faz história.  Município de nome e território pequenos, mas grande quando se trata de indicadores sociais e serviços para a sua população. Dentre as cidades da região do Alto Tietê, ela é a que mais se destaca. Ao conversar com pessoas que residem em Poá, se houve banhos de elogio à cidade.  Sua aparente tranquilidade e clima interiorano passam a ideia de segurança e bem-estar. Seu lema é: “os pequenos vencem pela audácia.”

Poá vem ganhando papel importante no cenário estadual. O projeto do trecho leste do Rodoanel Mário Covas é exemplo disto.  O projeto está em processo de liberação ambiental. Com 43,5 km de extensão, ele vai ligar o trecho sul, no sistema Anchieta - Imigrantes, com as rodovias SP - 066, Ayrton Senna e Presidente Dutra, passando pelos municípios de Arujá, Itaquaquecetuba, Mauá, Poá, Ribeirão Pires e Suzano.

Protagonista da EXPOÁ, festa tradicional de exposição de orquídeas e plantas ornamentais, o principal evento de Poá, que conta com outras atrações como concursos culturais e apresentações de cantores de vários gêneros musicais. Realizada todos os anos no mês de setembro na Praça de Evento, centro, a EXPOÁ de 2011 aderiu à era digital e disponibilizou aos visitantes sinal aberto para internet via wi-fi, em seus cinco dias de duração. Com cerca de 300 mil visitantes não se tem dúvida da popularidade deste evento e da identidade que ele deu ao município.

O investimento em cultura e lazer é evidente. O Centro Cultural Taiguara oferece aulas de dança para poaenses de 6 a 49 anos totalmente gratuitas. São cursos de ballet, jazz, dança de rua, dança de salão, ginástica e dança do ventre para iniciantes ou pessoas que já possuem algum tipo de experiência. Demais cursos, como o de teatro, fanfarra orquestra e coral também estão disponíveis. Há também exposições de arte como a “Arte Maia”, composta de réplicas dos objetos originais que se encontram em Museus e Coleções particulares – está em cartaz neste mês. Além dos incentivos aos esportes com campeonatos internos.

Apesar do desenvolvimento a denominada estância hidromineral de Poá tem seus aspectos negativos. Ruas que precisam ser asfaltadas em bairros afastados, medidas para evitar enchentes, causada pela água que transborda do córrego que corta a cidade, e melhorias no transporte público.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A voz e a vez da comunidade

Texto para o blog Mural.

Comecei a cursar Jornalismo por admiração. Ligava o rádio toda manhã e ao escutar a narração do noticiário não analisava o teor da gravidade das informações oferecidas ou sua simples constatação, mas na postura do jornalista, seu modo de falar, de produzir e transmitir conhecimento.

Eu, do outro lado do microfone, da câmera, do computador me senti na obrigação de saber quem é esse tal de jornalista, que não tem diploma, que suja a sola do sapato, que dá o sangue por um furo. Por que ele quer me deixar bem informado? Porque eu mereço e tenho o direito. A partir deste momento larguei minha faculdade de Filosofia e fui me aventurar nesse universo fascinante e passei a descobrir mais uma paixão, escrever.

Segundo Graciliano Ramos: “Quem escreve deve ter todo cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal”, de fato é, pois um jornalista que faz bom uso da palavra utiliza com precisão e deveras atenção para não dizer mais do que deveria e ser suficiente, mas eficaz. O escritor continua: “elas começam com uma primeira lava. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.”

É exatamente esse cuidado que se tem com a palavra, com a informação que me encanta e me faz querer ser jornalista. Conhecer histórias, compartilhá-las e fazer com que as pessoas se sintam mais comuns, mais próximas umas das outras. Contudo, Graciliano Ramos conclui que: “pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.” Dizer e ser voz daqueles que não são ouvidos. 

Almejo ser jornalista porque tenho orgulho desta profissão, quero ser a voz da minha comunidade, para a minha comunidade e pela minha comunidade. Quero mostrar a beleza da minha cidade e contribuir com sua melhoria.  Quero ser correspondente comunitária do Mural  porque quero deixar a voz falar e que ela possa se unir a outras tantas e tantas vozes e em uma espécie de coro, gritem: cidadania. 


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A felicidade não é uma só

O meu ângulo.
Foto: Tamiris Gomes
Estava no meio da tarde, havia sol. Aquele sol ardente, que queima, que faz os olhos não conseguirem abrir, que te deixa exausto da sobrecarga de luz, do calor que incomoda, que gruda. Avistei uma árvore e ali pousei. Grama verde, folhas caídas, meus olhos viam o céu azul por entre as brechas dos galhos da árvore. O vento passava por ela, passava por mim, passava... Vento, fica? Ele não quer. Quer passear, quer se aventurar. Vai ao casal da árvore ao lado, ao garoto deitado fazendo da mochila seu travesseiro, vai que não se sabe onde.

Pego o livro, leio uma frase, aquele céu está tão lindo, eu não consigo ler. Quero contemplar aquele azul. O azul que só eu posso ver, em um ângulo que só eu projeto, nesses olhos que a vida me deu. 
Eu ali imóvel, enquanto o vento voava por mim. Eu esqueci de todos os meus problemas, naquele minuto eu fui feliz.

Felicidade é um estágio que jamais alcançaremos. A felicidade absoluta é um mito, eu também concordo. Creio que a felicidade em si não é uma 'coisa' ou um 'sentimento' mas é uma busca. Uma busca constante por esses míseros minutos de felicidade. Nunca estaremos felizes por inteiro, mas quando uma das partes está feliz, as outras comemoram. Não seja feliz, busque a felicidade. Se porventura achá-la busque novamente, a felicidade não é uma só.

Busque a sua árvore, busque o seu céu azul.
Não deixe de não ser feliz por não lutar e não conseguir. 
Não deixe de não ser feliz por não resistir e não vencer.
Não deixe de ser feliz porque existe o não!

Tive que me levantar, abandonei a felicidade. Mas a grama não me deixava ir, ela me puxava, me prendia. O céu já não era mais tão azul e o vento resolveu ficar, então eu relutei e fui.
Ah! A grama era tão verde. O verde que só eu posso ver, em um ângulo que só eu projeto, nesses olhos que a vida me deu...



terça-feira, 30 de agosto de 2011

A vida é um doce



Seu nome é Maria Conceição Gonçalves Santos, nasceu em 11 de maio de 1961 em uma cidade denominada Brejões, localizada no Centro-Sul do estado da Bahia. Lugar de solo fértil para o plantio do café e de refúgio para retirantes, Brejões foi onde Dona Ceiça – como gosta de ser chamada – cresceu e viveu até seus 8 anos. Dona Ceiça lembra pouco de sua infância, apenas disse ter passado fome, algo que achou melhor esquecer. Quando chegaram em São Paulo Dona Ceiça e sua família foram morar no distrito do Itaim Paulista, Zona Leste. Com sonhos e expectativas palpitando, assim como é o coração de todo migrante que deixa sua terra natal e abandona suas raízes para se afixar em uma região desconhecida, cercada de desafios, Dona Ceiça rega seus sonhos com esperança mesmo que o medo venha tentar lhe roubar as forças. Mas medo maior ela sentiu quando seu pai falecera um ano após se instalarem em São Paulo, deixando sua mãe mais suas duas irmãs. Aos 13 anos Dona Ceiça já sabia costurar e aos 14 conheceu Givaldo, também baiano. Apaixonou-se e casou aos 19. Casada há 30 anos tem dois filhos e uma nora, que lhe deu o seu primeiro e até então único neto, o Gustavo de 4 anos.

Esta seria a história de Dona Ceiça, ainda assim seria bela, mas o constante sorriso em seus lábios e sua voz delicada e serena nos narra o seguinte:

Foto: Samantha Henzel
“Tudo começou há nove anos quando a minha filha faleceu aos 5 anos e 8 meses. Fiquei arrasada. Eu costumava costurar muito e um dia pensei e decidi que precisa sair daquilo, pois me consumia. Não aguentava mais ficar dentro de casa, presa. Eu queria ver gente, conversar, distrair. Eu queria mudar de vida. Eu almejava algo mais, e ainda almejo. Fui para a escola e terminei meus estudos. Quando chegou a época da Páscoa tive a ideia de fazer ovos de páscoa para meus afilhados e foi a partir deste momento que nasceu o meu amor pelo chocolate.”

Foi com amor e munida desta matéria-prima que Dona Ceiça deixou de ser somente Dona Ceiça para ser a “Tia da Trufa” quando em 3 de agosto de 2006 – data muito bem lembrada por ela – passou a vender suas guloseimas em frente a Universidade Cruzeiro do Sul, em São Miguel Paulista. O gosto amargo da perda de uma filha trouxe o que era doce para a vida de Dona Ceiça e aqueles mesmos sonhos e expectativas de menina o tempo não deixara morrer:

“O que me motiva é saber que o amanhã tem sempre coisas boas. Eu vejo sempre o lado bom de tudo. O amanhã é sempre o amanhã, ele é quem guarda as surpresas. A vida tem seus porquês. Se te derem um limão, faça uma limonada. Não são todos que têm o privilégio da vida, já que temos, vamos viver.”

Com notável simpatia, Dona Ceiça atende seus clientes, em sua maioria estudantes, com brilho nos olhos, brilho que reflete amor, tal qual Dona Ceiça adiciona a suas receitas. Ela cultivou amizades e às vezes é até psicóloga, dá conselhos e se orgulha disso. Mas o que a “Tia da Trufa” não sabe é que mais doce do que o chocolate que ela vende é a sua própria doçura. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Então, vamos falar de amigos...

Hoje é 20 de julho, dizem por aí que é dia do amigo. Dizem também que foi um argentino quem criou esta data devido à chegada do homem à lua em 20 de julho de 1969, com o argumente de que este é “um feito que demonstra que se o homem se unir com seus semelhantes, não há objetivos impossíveis”.

William Shakespeare diz que “bons amigos são a família que nos permitiram escolher”, só discordo em um ponto, nem sempre podemos escolher os amigos. Há pessoas que surgem em nossas vidas de maneiras tão peculiares, e de súbito se tornam especiais, mesmo que não tenhamos nada em comum, pois é essa diversidade que deixa a amizade mais completa, mais divertida, mais gostosa. Quem disse que temos que ter os mesmos gostos ou costumes que os nossos amigos, eu tenho amigos chatos, mas eu os amo mesmo assim, “há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e... os amigos, que são os nossos chatos prediletos”, é verdade Mário Quintana.

Amigos verdadeiros são jóias raras, difíceis de encontrar, são tesouros de valor inestimável, “todas as riquezas do mundo não valem um bom amigo” disse Voltaire, isso é incrível, pois por diversas vezes são em momentos singelos que se constroem laços intensos, significativas de amizade, os quais deixam as marcas mais profundas e expressivas, “não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz” é isso, é isso Machado de Assis! O simples também é raro.
Immanuel Kant foi perspicaz e conta que “a amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor.”, amigos têm crises, haverá brigas e... “pode ser que um dia deixemos de nos falar... mas, enquanto houver amizade, faremos as pazes de novo”, faço das palavras de Albert Einstein as minhas. Porque amigo também perdoa.

Carlos Drummond de Andrade diz que “a amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas.” Sim e não. A amizade é um meio de nos isolarmos das tristezas e cultivarmos algumas alegrias, a amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro, disse Platão e eu digo que quem tem amigos têm o mundo, eu não preciso de modelos, não preciso de heróis, eu tenho meus amigos, declaramos eu e Renato Russo. Agora faço como Clarice Lispector: “um amigo me chamou pra cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso. E fui.” Sem exitar, pois sei que ele fará o mesmo por mim.


Dedico este texto aos meus queridos amigos, àqueles que de alguma forma contribuem para a minha felicidade e dão à minha vida um toque a mais de amor.

Feliz Dia do Amigo.