Na
madrugada deste sábado, com uma amiga, a Samantha e mais
duas pessoas que prefiro não identificar, tive a experiência de ir para a
Cracolândia. Estávamos próximo à estação de trem Júlio Prestes e ali decidimos
descer do carro para irmos conversar com aquelas pessoas, invisíveis para a
sociedade, ou visíveis negativamente, não que se deva olhá-los positivamente,
mas com o mínimo de sensibilidade e respeito, isso mesmo, respeito.
O
intuito desta nossa “aventura” era parte integrante de um trabalho acadêmico e
precisávamos de um depoimento com declarações a cerca das drogas, do vício e
afins. Ao chegarmos, nos receberam bem. Conversaram conosco, respondiam a toda
e qualquer pergunta, mas um porém, não queriam ser gravados. De forma alguma
queriam ser gravados, nem em vídeo ou áudio. Relatavam que a imprensa é
deturpadora e o medo deles é que isso fosse para a internet e alegavam que
tinham família e não queriam ser expostos desta maneira.
O
Ivan foi um dos que “armou” a conversa para nós. Alto, moreno e de bigode.
Expressava-se bem, era articulador e esperto e não fumou perto de nós. Ali,
falamos também com o Marcelo, moreno e magro, ficou o tempo todo sentado, diz
que era designer gráfico, morava no Rio de Janeiro e que possuía vários imóveis
em São Paulo e que chegou a gastar 40.000 em drogas em 15 dias. Antônio, diz
que era fresador, já tentou parar de usar drogas cinco vezes e não conseguiu e
diz que sua família o ajuda eventualmente, estava há duas semanas sem tomar
banho, moreno claro de barba e calmo, o que menos falava. Alex, aparentemente o
mais alucinado, se movimentava demais, ia até nós e depois voltava para onde
estava, mas queria estar envolvido e participar da conversa, negro, jovem, diz
que não sabia ler, mas que sabia fazer tudo quanto era trabalho artesanal.
Durante
aproximadamente o tempo de 1 hora, ficamos ali tirando as nossas dúvidas
enquanto jornalistas e também pessoas, porque é impossível não se comover. Nos
contaram que quando aparece uma criança na esquina, gritam “anjo” e todos param
de fumar, por questão de “ética”. Mas ética em um lugar como aquele? Pois é. O
mesmo acontece quando precisam “utilizar o banheiro”, é desrespeitoso fazer
isto à vista de todos, principalmente mulheres. Disseram que há um
compartilhamento de comida, que ninguém passava fome.
Depois
de tudo, quando estávamos para ir embora, o Ivan disse que deveríamos pagá-los
pela entrevista (entrevista essa que não havia sido gravada). Foi esse o
momento mais tenso. Formou-se um círculo e começaram a discutir entre eles, uns
queriam aliviar a barra para nós, outros diziam que deveríamos pagar. Uma das
pessoas que nos acompanhava na empreitada sacou R$30, 00 da carteira, o Alex
não esperou o veredito final, pegou o dinheiro e saiu, sem dizer que ia dividir
com os outros.
O
Ivan se irritou, nos acompanhou até o carro e disse que deveríamos dar mais
dinheiro para ele, pois se ele voltasse sem nada ele ia se ferrar. Tínhamos
mais R$ 30,00 no carro. Nesse trâmite todo, Ivan permitiu que o gravássemos
dando um depoimento. Foram mais ou menos 20 minutos de vídeo. Nos agradeceu,
pegou seus “trintão” e foi.
Na
volta, ouvindo Nazareth no
último volume, vento nos cabelos, pensei em tudo o que havia acontecido. Termino com algumas palavras de Ivan: “vocês ganharam uma experiência,
ninguém tem coragem de fazer isso que vocês estão fazendo agora...”
Por Tamiris Gomes