sábado, 15 de outubro de 2011

Um caso na Cracolândia


Na madrugada deste sábado, com uma amiga, a Samantha e mais duas pessoas que prefiro não identificar, tive a experiência de ir para a Cracolândia. Estávamos próximo à estação de trem Júlio Prestes e ali decidimos descer do carro para irmos conversar com aquelas pessoas, invisíveis para a sociedade, ou visíveis negativamente, não que se deva olhá-los positivamente, mas com o mínimo de sensibilidade e respeito, isso mesmo, respeito.

 

O intuito desta nossa “aventura” era parte integrante de um trabalho acadêmico e precisávamos de um depoimento com declarações a cerca das drogas, do vício e afins. Ao chegarmos, nos receberam bem. Conversaram conosco, respondiam a toda e qualquer pergunta, mas um porém, não queriam ser gravados. De forma alguma queriam ser gravados, nem em vídeo ou áudio. Relatavam que a imprensa é deturpadora e o medo deles é que isso fosse para a internet e alegavam que tinham família e não queriam ser expostos desta maneira.

 


O Ivan foi um dos que “armou” a conversa para nós. Alto, moreno e de bigode. Expressava-se bem, era articulador e esperto e não fumou perto de nós. Ali, falamos também com o Marcelo, moreno e magro, ficou o tempo todo sentado, diz que era designer gráfico, morava no Rio de Janeiro e que possuía vários imóveis em São Paulo e que chegou a gastar 40.000 em drogas em 15 dias. Antônio, diz que era fresador, já tentou parar de usar drogas cinco vezes e não conseguiu e diz que sua família o ajuda eventualmente, estava há duas semanas sem tomar banho, moreno claro de barba e calmo, o que menos falava. Alex, aparentemente o mais alucinado, se movimentava demais, ia até nós e depois voltava para onde estava, mas queria estar envolvido e participar da conversa, negro, jovem, diz que não sabia ler, mas que sabia fazer tudo quanto era trabalho artesanal.



Durante aproximadamente o tempo de 1 hora, ficamos ali tirando as nossas dúvidas enquanto jornalistas e também pessoas, porque é impossível não se comover. Nos contaram que quando aparece uma criança na esquina, gritam “anjo” e todos param de fumar, por questão de “ética”. Mas ética em um lugar como aquele? Pois é. O mesmo acontece quando precisam “utilizar o banheiro”, é desrespeitoso fazer isto à vista de todos, principalmente mulheres. Disseram que há um compartilhamento de comida, que ninguém passava fome.



Depois de tudo, quando estávamos para ir embora, o Ivan disse que deveríamos pagá-los pela entrevista (entrevista essa que não havia sido gravada). Foi esse o momento mais tenso. Formou-se um círculo e começaram a discutir entre eles, uns queriam aliviar a barra para nós, outros diziam que deveríamos pagar. Uma das pessoas que nos acompanhava na empreitada sacou R$30, 00 da carteira, o Alex não esperou o veredito final, pegou o dinheiro e saiu, sem dizer que ia dividir com os outros.

O Ivan se irritou, nos acompanhou até o carro e disse que deveríamos dar mais dinheiro para ele, pois se ele voltasse sem nada ele ia se ferrar. Tínhamos mais R$ 30,00 no carro. Nesse trâmite todo, Ivan permitiu que o gravássemos dando um depoimento. Foram mais ou menos 20 minutos de vídeo. Nos agradeceu, pegou seus “trintão” e foi.

Na volta, ouvindo Nazareth no último volume, vento nos cabelos, pensei em tudo o que havia acontecido. Termino com algumas palavras de Ivan: “vocês ganharam uma experiência, ninguém tem coragem de fazer isso que vocês estão fazendo agora...

 


Por Tamiris Gomes

Nenhum comentário:

Postar um comentário