sábado, 22 de outubro de 2011

No meu tempo...

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.


Mário Quintana, O Tempo


O tempo é relativo. Kant¹ o concebia como a constituição de sensações, resultantes do nosso estado de consciência. O que faz todo o sentido uma vez que o tempo, em teoria, é individual para cada ser humano, intimamente ligado ao nosso estado físico e psíquico. Dilemas sobre o tempo assombram milhares de pessoas no mundo. O estresse precoce, a correria cotidiana de intensa agitação, a busca do status e o incessante reconhecimento profissional é a partida para uma priorização do pessoal, fazendo do tempo apenas uma ferramenta de trabalho.

O tempo é gasto de forma descartável. A dinâmica da vida moderna trouxe consigo complexos irreversíveis para a sociedade. Estar sempre atrasado virou rotina, e não se atrasar é lei. Em um mundo tecnológico em que as informações são tidas com tal velocidade parece até controverso dizer que “falta tempo”, “não se tem tempo”. Deveria sobrar, mas a demanda é maior que o produto. Nos sobrecarregamos com atividades porque queremos preencher o tempo, como se ter tempo livre fosse um pecado. Uma folga, conversar com um amigo, escutar uma boa música e caminhar, por exemplo, são 'preenchimentos' necessários de tempo.


Além de ser um recurso norteador de ações, o tempo é uma das referências de nossa existência. Ele é o detalhe da vida e a vida é o grande quadro que o tempo pinta. Mas o tempo não é artista, ele é só a tinta...




Quem mata o tempo não é assassino, mas sim um suicida."
Millôr Fernandes




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¹Immanuel Kant, filósofo alemão, em geral considerado o pensador mais influente dos tempos modernos, nasceu em Königsberg, atual Kaliningrado, em 22 de abril de 1724. Não casou nem teve filhos, faleceu em 1804 aos 80 anos.



sábado, 15 de outubro de 2011

Um caso na Cracolândia


Na madrugada deste sábado, com uma amiga, a Samantha e mais duas pessoas que prefiro não identificar, tive a experiência de ir para a Cracolândia. Estávamos próximo à estação de trem Júlio Prestes e ali decidimos descer do carro para irmos conversar com aquelas pessoas, invisíveis para a sociedade, ou visíveis negativamente, não que se deva olhá-los positivamente, mas com o mínimo de sensibilidade e respeito, isso mesmo, respeito.

 

O intuito desta nossa “aventura” era parte integrante de um trabalho acadêmico e precisávamos de um depoimento com declarações a cerca das drogas, do vício e afins. Ao chegarmos, nos receberam bem. Conversaram conosco, respondiam a toda e qualquer pergunta, mas um porém, não queriam ser gravados. De forma alguma queriam ser gravados, nem em vídeo ou áudio. Relatavam que a imprensa é deturpadora e o medo deles é que isso fosse para a internet e alegavam que tinham família e não queriam ser expostos desta maneira.

 


O Ivan foi um dos que “armou” a conversa para nós. Alto, moreno e de bigode. Expressava-se bem, era articulador e esperto e não fumou perto de nós. Ali, falamos também com o Marcelo, moreno e magro, ficou o tempo todo sentado, diz que era designer gráfico, morava no Rio de Janeiro e que possuía vários imóveis em São Paulo e que chegou a gastar 40.000 em drogas em 15 dias. Antônio, diz que era fresador, já tentou parar de usar drogas cinco vezes e não conseguiu e diz que sua família o ajuda eventualmente, estava há duas semanas sem tomar banho, moreno claro de barba e calmo, o que menos falava. Alex, aparentemente o mais alucinado, se movimentava demais, ia até nós e depois voltava para onde estava, mas queria estar envolvido e participar da conversa, negro, jovem, diz que não sabia ler, mas que sabia fazer tudo quanto era trabalho artesanal.



Durante aproximadamente o tempo de 1 hora, ficamos ali tirando as nossas dúvidas enquanto jornalistas e também pessoas, porque é impossível não se comover. Nos contaram que quando aparece uma criança na esquina, gritam “anjo” e todos param de fumar, por questão de “ética”. Mas ética em um lugar como aquele? Pois é. O mesmo acontece quando precisam “utilizar o banheiro”, é desrespeitoso fazer isto à vista de todos, principalmente mulheres. Disseram que há um compartilhamento de comida, que ninguém passava fome.



Depois de tudo, quando estávamos para ir embora, o Ivan disse que deveríamos pagá-los pela entrevista (entrevista essa que não havia sido gravada). Foi esse o momento mais tenso. Formou-se um círculo e começaram a discutir entre eles, uns queriam aliviar a barra para nós, outros diziam que deveríamos pagar. Uma das pessoas que nos acompanhava na empreitada sacou R$30, 00 da carteira, o Alex não esperou o veredito final, pegou o dinheiro e saiu, sem dizer que ia dividir com os outros.

O Ivan se irritou, nos acompanhou até o carro e disse que deveríamos dar mais dinheiro para ele, pois se ele voltasse sem nada ele ia se ferrar. Tínhamos mais R$ 30,00 no carro. Nesse trâmite todo, Ivan permitiu que o gravássemos dando um depoimento. Foram mais ou menos 20 minutos de vídeo. Nos agradeceu, pegou seus “trintão” e foi.

Na volta, ouvindo Nazareth no último volume, vento nos cabelos, pensei em tudo o que havia acontecido. Termino com algumas palavras de Ivan: “vocês ganharam uma experiência, ninguém tem coragem de fazer isso que vocês estão fazendo agora...

 


Por Tamiris Gomes