| Foto: Tamiris Gomes |
Fecho o livro, meus olhos já
estão exaustos. Ainda faltam duas paradas para chegar ao ponto em que desço.
Foi aí que pela porta de trás do ônibus vejo entrar uma família, cheia de
trouxas e mochilas. Um pai, uma mãe e um garoto, o Neguinho. Eu estava sentada naqueles bancos altos, que ficam sobre as
rodas e foi ali que Neguinho quis
sentar – como toda criança. O pai, depois que subiu as coisas e o filho, correu
para entrar pela porta da frente, pagou as passagens e passou a catraca.
Neguinho
estava ao meu lado, de tão pequeno quase não era possível notá-lo, com uma
havaianas nos pés, short jeans e uma regata dava para ver os ralados das
canelas, dos joelhos e dos cotovelos em sua pele morena. Seus pequenos olhos
negros olham estagnados através da janela, contemplando as luzes da cidade. Os
olhos de Neguinho brilhavam e eram
muito mais reluzentes do que a radiação da luz no poste do viaduto.
Eu o olhava
e sorria. O pai, sentado do outro lado chamava por ele: “Neguinho, vem como o pai, vem?”, dizia. Mas o menino não respondia,
eu não sei o que ele via. Não sei nem se Neguinho
já havia andado de ônibus alguma vez. O pai redarguiu: “Vem, meu Neguinho!” e estendeu os braços. Neguinho não se conteve e caiu no colo do homem. A minha presença
sequer foi notada e Neguinho estava
lá, a olhar as luzes da outra janela.
Não sei nada sobre Neguinho,
não sei seu nome nem sua idade. Não sei seu doce ou desenho animado favoritos,
se é sapeca ou tímido. Só sei que Neguinho tinha olhos. Olhos que brilhavam, como luz.